terça-feira, 25 de outubro de 2011

Eixos norteadores: até que ponto?


               O que me chamou muito a atenção foi que nas primeiras linhas dos eixos norteadores, preocupa-se em dizer qual a concepção de homem (e ai temos um problema de gênero, o ideal seria: qual a concepção de ser humano) e de aprendizagem: o homem que se pretende formar e como deve ser a sua relação com o conhecimento.

                Para a Proposta Curricular deste estado, o ser humano (resolvido o problema de gênero!) é entendido como social e histórico. Dessa forma, se utilizando de Marx, pode-se entender que o ser humano é causa e efeito dos resultados dos processos históricos.
                Não é meu objetivo descrever todo o documento aqui, portanto vou destacar o que considero mais interessante dentro da proposta: a ideia de socialização do conhecimento.
               Para que haja uma verdadeira socialização de conhecimento é necessário que se garanta uma educação para todos, não faz sentido uma socialização para alguns, e para que isso possa ocorrer não basta que todas as crianças estejam na escola, dentro da sala de aula o professor precisa oportunizar conhecimento a todos e não apenas aqueles que têm maior facilidade. É evidente a relação com o conceito de Bourdieu do “capital cultural”.
                Deve também ocorrer uma socialização entre o conhecimento das disciplinas escolares com os saberes trazidos pelas crianças e que foram elaborados num meio extra-escolar, dessa forma existe uma aproximação maior dos saberes o que aumenta o interesses dos alunos nas aulas. A socialização da riqueza intelectual que ocorre dentro da escola possibilita a socialização da riqueza material, isso porque através da apropriação da riqueza intelectual criam-se oportunidades para as camadas mais populares criarem ações políticas que permitam maior distribuição de riqueza
O que é igualmente importante ressaltar é que a proposta traz a concepção histórico-cultural de aprendizagem, ou seja, são as interações sociais vividas pelas crianças que agem na formação das funções psicológicas superiores. Logo se uma criança tem dificuldades de acompanhar as atividades escolares não é uma determinação da natureza e sim uma determinação social.


Tudo muito bom, tudo muito bem, no papel...  E na prática? Quantos desses conceitos excelentes são aplicados?


Tive a oportunidade de trabalhar durante três anos dentro de uma escola estadual, e tirando o esforço isolado de alguns professores, eu pouco via desses “eixos norteadores” dentro daquela escola e infelizmente eu sei que muitas outras também são assim.

Fica a dúvida: Até que ponto os eixos norteadores “norteiam” de fato? 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Escolarização: Influência das teorias de currículo

É sempre agradável relembrar minha trajetória escolar, logo me vem à mente bons momentos de minha vida que geralmente gosto de compartilhar. Pois bem, este não é a hora certa para nostalgia, o objetivo deste post é relacionar as influências, que me foram perceptíveis, do currículo escolar em meu processo de aprendizagem.
Acredito que seja importante dizer que sou de uma família de professores, logo tive e ainda tenho, intenso contato com o ambiente escolar, na minha casa, por exemplo, conversas sobre planos de aula, currículo e projetos são temas muito corriqueiros.
Mas é claro que quando criança eu não compreendia toda a dimensão do currículo escolar e muito menos que ele é resultado de uma construção sócio-cultural e histórica, influenciado por teorias especificamente destinadas a ele.

Durante minha escolarização estudei em três escolas diferentes, todas da rede privada, mas uma delas me marcou mais e por isso prefiro dar destaque aos anos em que estudei nela que foram de 2003 a 2006, do sexto ao nono ano do ensino fundamental.
Hoje analisando alguns aspectos que ainda recordo do meu ensino, vejo que as teorias tradicionais não estavam presentes no currículo e muito menos na organização da escola. Acredito que as influências eram todas das teorias crítica e pós-criticas.



O nosso uniforme é um exemplo disso. A única peça obrigatória era a camiseta, que ao contrario da maioria das escolas que utilizam um padrão de cor, a nossa mantinha o nome da instituição, mas havia cores diferentes, ou seja, havia camisas, azuis, brancas, verdes, amarelas e outras que não me lembro agora! Além disso, as camisetas podiam ser customizadas e nas sextas-feiras éramos dispensados do uniforme. Na época não me dava conta mais hoje percebo que dessa forma cada um tinha mais liberdade de expressar seu próprio estilo, sem ter que seguir um modelo padrão.
Recordo-me também de inúmeros eventos sócio-culturais desenvolvidos pela escola, que estimulavam os alunos a combaterem a discriminação racial, social e sexual, assim como campanhas de conscientização onde se pregava a preservação ambiental e o cuidado com a saúde. E todos esses momentos eram compartilhados com a comunidade, através de passeatas nas ruas próximas a escola e feiras culturais na praça municipal.
Nas aulas os professores estimulavam os alunos a transmitirem suas vivencias sempre considerando os saberes que já tínhamos antes de nos trazer novos conhecimentos, considerando, dessa forma, a realidade e o contexto social de todos os alunos.

Esta escola não me preparou para o mercado de trabalho capitalista, não me estimulou a competitividade ferrenha e não me fez ser individualista! Nossa! Quantos “nãos” importantes e que me influenciam até hoje. Além desses “nãos” tiveram alguns “sins”, para o respeito ao outro e as diferenças, para o pensamento crítico e ao ensino como troca entre professores e alunos.  

Minha memória não é das melhores, mas acredito que esses exemplos serviram para mostras as influências das teorias curriculares, em pelo menos, parte de minha trajetória curricular.