
O que me chamou muito a atenção foi que nas primeiras linhas dos eixos norteadores, preocupa-se em dizer qual a concepção de homem (e ai temos um problema de gênero, o ideal seria: qual a concepção de ser humano) e de aprendizagem: o homem que se pretende formar e como deve ser a sua relação com o conhecimento.
Para a Proposta Curricular deste estado, o ser humano (resolvido o problema de gênero!) é entendido como social e histórico. Dessa forma, se utilizando de Marx, pode-se entender que o ser humano é causa e efeito dos resultados dos processos históricos.
Não é meu objetivo descrever todo o documento aqui, portanto vou destacar o que considero mais interessante dentro da proposta: a ideia de socialização do conhecimento.
Para que haja uma verdadeira socialização de conhecimento é necessário que se garanta uma educação para todos, não faz sentido uma socialização para alguns, e para que isso possa ocorrer não basta que todas as crianças estejam na escola, dentro da sala de aula o professor precisa oportunizar conhecimento a todos e não apenas aqueles que têm maior facilidade. É evidente a relação com o conceito de Bourdieu do “capital cultural”.
Deve também ocorrer uma socialização entre o conhecimento das disciplinas escolares com os saberes trazidos pelas crianças e que foram elaborados num meio extra-escolar, dessa forma existe uma aproximação maior dos saberes o que aumenta o interesses dos alunos nas aulas. A socialização da riqueza intelectual que ocorre dentro da escola possibilita a socialização da riqueza material, isso porque através da apropriação da riqueza intelectual criam-se oportunidades para as camadas mais populares criarem ações políticas que permitam maior distribuição de riqueza
O que é igualmente importante ressaltar é que a proposta traz a concepção histórico-cultural de aprendizagem, ou seja, são as interações sociais vividas pelas crianças que agem na formação das funções psicológicas superiores. Logo se uma criança tem dificuldades de acompanhar as atividades escolares não é uma determinação da natureza e sim uma determinação social.
Tudo muito bom, tudo muito bem, no papel... E na prática? Quantos desses conceitos excelentes são aplicados?
Tive a oportunidade de trabalhar durante três anos dentro de uma escola estadual, e tirando o esforço isolado de alguns professores, eu pouco via desses “eixos norteadores” dentro daquela escola e infelizmente eu sei que muitas outras também são assim.
Fica a dúvida: Até que ponto os eixos norteadores “norteiam” de fato?
